Anália Franco: o bairro que nasceu de atitudes generosas

Anália Franco: o bairro  que nasceu  de atitudes

De área rural a hospedaria do Regente Feijó
O Sítio do Capão localiza-se em uma colina e foi implantado em um lote urbano restante da Fazenda Paraíso, antiga Fazenda Capão. O imóvel está situado à Rua Professor João de Oliveira Torres, 566, no bairro da Água Rasa, na região do Tatuapé, na zona leste da cidade.
Diogo Antônio Feijó, o Regente Feijó, foi um dos proprietários do Sítio do
Capão. Ele se tornou regente do Império do Brasil de 1837 a 1935 e morou no local por aproximadamente 14 anos.
Os aspectos rurais do entorno foram gradualmente incorporados à malha urbana da cidade. O sítio se transformou em instituição de caridade e, após um breve período sem uso, passou a vivenciar o crescimento imobiliário com instalação de infraestrutura que transformou a localidade em um dos setores mais valorizados da cidade.
O casarão bandeirista foi erguido no final do século XVII junto a um dos importantes caminhos e vetores de circulação colonial para a banda do Vale do Paraíba. A edificação vai se impondo na paisagem, ganhando, ao longo do século XIX, seu contorno levemente burguês na forma de chalé implantado em meio a um “lote” melhor demarcado no espaço, ao mesmo tempo em que incorpora equipamentos próprios ao ambiente rural (unidades de produção, currais, casas de colonos, etc.).
Na edificação residiam eventualmente proprietários ilustres e seus agregados. Com a mudança de função da propriedade no início do século XX, uma parcela da área é murada, assegurando o confinamento foi de menores carentes e garantindo a preservação do material relacionado à história cotidiana de seus antigos ocupantes.

O Internato Anália Franco
Em 17 de novembro de 1901, foi fundada pela educadora Anália Emília Franco e outras 20 senhoras da sociedade paulistana a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva de São Paulo, que originalmente funcionou no Largo do Arouche, centro da cidade de São Paulo. Em 1911, a Associação conseguiu adquirir a “Chácara Paraíso” – ou Sítio do Capão – e implantou no local a Colônia Regeneradora Romualdo de Seixas, aproveitando o casarão, a estrebaria e a antiga senzala. Ali eram recebidos, em regime de internato, os garotos mais aptos para a lavoura, a horticultura e outras atividades agro-pastoris, e as meninas sem lares.
Nas instalações, não somente eram ensinadas as matérias convencionais, mas criaram-se oficinas para confeccionar brinquedos e artesanato. Montou-se também uma tipografia, na qual as meninas aprendiam a profissão de tipógrafo e, ao mesmo tempo, imprimiam as revistas educativas para divulgação dos ensinamentos da instituição.
Foram criados cursos de enfermagem e “arte dentária”, os quais atendiam as próprias alunas. Também foi formado um grupo dramático-musical, que durante oito anos se apresentou em várias cidades e estados.
O Lar Anália Franco era comandado pela mulher que, no início do século passado, era conhecida como a Grande Dama da Educação Brasileira, Anália Franco Bastos, mais conhecida como Anália Franco.
Nascida em 29 de fevereiro de 1856 no município de Resende, no Estado do Rio de Janeiro, havia sido casada com
Francisco Antônio Bastos. Foi uma mulher de grandes habilidades, dentre muitas foi professora, jornalista, poetisa e filantropa brasileira. A ênfase do seu trabalho sempre foi a valorização do ser humano e seu método educativo visava o aprendizado na prática, para o qual criou materiais didáticos próprios.
Sua trajetória mostra uma vasta “produção”. Construiu 55 escolas maternais no interior do Estado de São Paulo e na capital, 3 liceus, 4 escolas para adultos, 2 escolas de idiomas, 7 escolas profissionalizantes, 2 colégios e 24 creches.
Anália Franco faleceu em 21 de janeiro de 1919, pouco antes de completar 66 anos, vítima do trágico surto de gripe espanhola que dizimou milhares de brasileiros. Ela contraiu a doença quando tratava de meninas internas.
Na instituição, pessoas carentes recebiam atendimento médico e odontológico gratuitamente; crianças estudavam as matérias que formam a base do aprendizado regular e aprendiam também a confeccionar roupas, brinquedos e até livros e revistas educativas para divulgação dos ensinamentos da associação.
Este instituto educacional e benemérito ocupou a propriedade até o final dos anos 60, quando a propriedade foi vendida e loteada, dando origem ao bairro hoje conhecido como Jardim Anália Franco.
A sede do sítio, o casarão erguido no século XVII em taipa de pilão, foi tombado pelo Conpresp - nº 5 de 1991, e
Condephaat - nº 18 de 1984 (respectivamente os órgãos municipal e estadual responsáveis pela preservação do patrimônio arquitetônico, histórico e cultural) e, desde 2001, abriga o campus Anália Franco da Universidade Cruzeiro do Sul.
Hoje, a sede da Associação Anália Franco funciona em uma fazenda e em um imóvel na área urbana da cidade de Itapetininga, no sul do Estado de São Paulo. Ao longo de seus 112 anos de atividades, estima-se ter beneficiado aproximadamente 100 mil pessoas necessitadas.
O Edifício Anália Franco e a implantação de uma Universidade
A partir de 1934, o Internato Anália Franco passou a funcionar no novo prédio de 6.500 m² projetado (Escritório Severo & Villares) e construído para este fim. A Associação
Beneficente e Instrutiva Eleonora Cintra, ou Lar Anália Franco, abrigou e educou crianças órfãs e sem lar em São Paulo até 0 fim dos anos 80. O edifício, despojado de ornamentação em sua tendência art déco, de planta quadrada, definia em seu centro um amplo pátio aberto, articular de todos os setores do conjunto.
Austero e geometricamente regular, possuía salas de aula e refeitório no pavimento inferior e dormitórios nas alas laterais e posterior, reservando-se o trecho frontal superior como espaço institucional para eventos ligados à formação de seus meninos e meninas.
Em 1999, o projeto de restauro realizado (Kruchin Arquitetura) se debruçou sobre os espaços vazios e deteriorados, buscando adequar as estruturas antigas a um novo uso: sede do campus Anália Franco da Universidade Cruzeiro do Sul.
O projeto arquitetônico deveria, portanto, reunir elementos para justificar a tese da permanência daquelas estruturas assim como da viabilidade e do sentido de sua transformação em algo que contivesse um sentido novo, de empreendimento e de futuro.
Uma das premissas da nova intervenção foi justamente resgatar esta função educacional perdida, repovoando e refuncionalizando os espaços.
Na implantação, a valorização de sua planta original sobre uma colina constitui, até hoje, a marca central da identidade do bairro lhe emprestando o próprio nome: Anália Franco. As grandes massas que seriam edificadas foram deslocadas para os setores laterais do terreno, reduzindo a interferência na volumetria original do vazio internato.
O pátio central, mais que integrar o conjunto, deveria ocupar um local simbólico, a ideia básica de universidade: o lugar eleito do conhecimento. Dessa forma, ocorreu a implantação da grande biblioteca em torno da qual se distribuem todos os espaços.
A presença da luz natural e o novo piso desenhado em mosaico retraduzem a ideia de espaço público, das praças tradicionais da cidade, do lugar de encontro.
Internamente, um vasto programa de usos exigia dotar a velha estrutura, onde funcionava o Lar, de condições técnicas e operacionais absolutamente contemporâneas. Resulta deste movimento de múltiplas intervenções uma síntese entre permanência e transformação, entre imagem consolidada e mutação, entre identidade urbana reafirmada e renovação arquitetônica pretendida.
Em 2004, foi inaugurado o edifício
Luíza de Marchi Padovese como a ala nova do campus da Universidade. Sua implantação propõe a articulação entre os dois edifícios preservados – a casa bandeirista do Sítio do Capão e o edifício Anália Franco. Encravado entre dois prédios de séculos anteriores, foi adotada uma arquitetura de caráter expressivo e contemporâneo que permitisse contrastar e valorizar o contorno de cada momento.
O novo campus da universidade parece pousar sobre um antigo caminho que, no passado, conectava as estradas do Caaguaçu, passando pelo solar do
Regente Feijó. Esse simbolismo é materializado por um atrium, de onde partem as rampas que levam à cobertura-jardim como continuidade natural do parque que o margeia, área destinada à convivência e atividades esportivas.
Apesar de o Lar não funcionar mais no local, a lição que Anália Franco nos deixa é que apostar no potencial humano é muito válido. Devido a esse investimento surge um dos bairros mais importantes da principal megalópole do País. Além disso, o maior bem que alguém pode deixar é esta herança: de valores, da possibilidade de adquirir cultura e conhecimento e que amar o próximo vale a pena.

 

por Kátia Soares | fonte Kruchin Arquitetura
fotos Andres Otero, Nelson Kon e acervo Kruchin Arquitetura

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