Consórcio ganha força na compra da casa após mudanças na Caixa

Consórcio ganha força na compra da casa

As vendas de imóveis mais fracas são uma oportunidade para o consumidor que compra à vista garantir bons descontos, mas quem precisa de crédito tem encontrado vantagens no consórcio. A modalidade, segundo especialistas, é indicada para compradores que não conseguem poupar e não têm pressa. Ao contrário do financiamento bancário, no qual o mutuário paga as parcelas ao banco já morando no imóvel, o consórcio só libera o recurso para a compra mediante sorteio da carta de crédito ou ao término do plano. Para não precisar contar apenas com a sorte e acelerar o processo, o participante pode dar lances (como se antecipasse as parcelas). Ao receber a carta, então, ele ganha o poder de negociação de quem compra à vista.

Mais recentemente, o consórcio ganhou apelo com a mudança das regras de concessão de crédito pela Caixa. Desde abril, o banco público, que detém 70% desse mercado, privilegia o financiamento de imóveis novos em detrimento ao de usados. Nesse caso, o banco passou a exigir entrada de 50% do valor do bem para financiar o restante. Com a necessidade de uma poupança maior, o consórcio passa a ser uma boa opção principalmente para quem quer um imóvel antigo. Entre janeiro e abril, o consórcio imobiliário cresceu 19,7% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo a Abac (Associação de Administradoras de Consórcio), com 65,5 mil novos contratos. Nesse mesmo período, o número de novos financiamentos de imóveis caiu 8% (para 154 mil imóveis), de acordo com a Abecip (Associação das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança).

Até o fim deste ano, o setor prevê que o consórcio ganhe mais espaço: alta de 8% a 12% no número de novos consorciados em relação a 2014. “A escolha depende do perfil do consumidor. Quando financiar o imóvel se torna mais difícil, ele passa a buscar alternativas”, avalia Marco Aurélio Luz, presidente da Amspa (Associação de Mutuários de São Paulo).

Preço estável de imóvel dá segurança à negociação em consórcio

A falta de previsibilidade da compra do imóvel (que pode ocorrer com o sorteio na primeira prestação ou só ao término do plano) e a perda de valor da carta de crédito sempre pesaram

contra a adesão ao consórcio. A questão do prazo pode ser contornada por meio de lances. Ainda assim, não há garantias de que o comprador receba o dinheiro quando precise, já que os outros consorciados podem fazer apostas maiores e levar a carta de crédito primeiro. Marcelo Prata, do Canal do Crédito, site de comparação de produtos financeiros, afirma que quem tem pressa para comprar o imóvel deve dar lances em torno de 50% do valor total da carta de crédito para ter chances de antecipar a compra. “Há pouco tempo, quem fazia um consórcio corria mais riscos de que a carta de crédito não fosse suficiente para a compra. Agora, como os preços dos imóveis pararam de subir tanto, o poder de compra do consórcio ficou melhor”, diz Prata. 

Segundo Rodolfo Montosa, presidente da Abac (Associação Brasileira de Administradoras de Consórcio), o tempo de espera para colocar a mão no benefício, em média, é a metade do prazo do consórcio: se o cliente está em um grupo de 120 meses, por exemplo, a carta de crédito costuma vir em 60 meses. Mas não é uma regra. O analista de suprimentos Marcelo Martin, 32, resolveu usar o prazo a seu favor. Ele e a namorada planejavam a compra de um apartamento usado via financiamento. Mas eles tinham menos do que o valor exigido pela Caixa para dar a entrada no imóvel, após a mudança nas regras de usados, e optaram por um consórcio, com parte das economias em lances. “Como as taxas para financiamento bancário estão altas, decidimos descartar o imóvel que tínhamos encontrado e usaremos o tempo do consórcio para achar outro”, diz Martin. 

Segundo Rafael Boldo, gerente da Porto Seguro Consórcio, essa tem sido uma estratégia ante a escassez de recursos da poupança (principal fonte de financiamento imobiliário) e às restrições de crédito pelos bancos.

Segurança

Em um consórcio, são os próprios participantes que se financiam. A administradora reúne grupos de interessados e eles pagam taxas de administração, seguro e fundo de proteção contra calotes. A cada mês, uma ou mais pessoas são sorteadas para receber uma carta de crédito e continuam pagando as parcelas para financiar as compras dos demais. O consórcio pode durar mais de 16 anos. O valor recebido pode ser usado para comprar e reformar a casa ou negociar um terreno. Também é permitido usar até 10% do benefício para pagar impostos ou na emissão de certidões do imóvel. Outra opção é o resgate em dinheiro da carta após o encerramento do grupo.

Antes de fazer um consórcio, é importante certificar-se se a empresa está autorizada a funcionar. O site do Banco Central (www.bc.gov.br) tem dados que auxiliam na escolha – como a lista das administradoras com maior número de queixas.

O consórcio é a melhor opção?

Perfil do consorciado

Há desde o casal que já pensa em guardar para comprar uma casa no futuro, ao solteiro que quer morar sozinho e não tem pressa para sair da casa dos pais. O importante é que o consumidor não tenha urgência para se mudar.

Planos futuros

Decisões que exigem alto investimento, como a compra da casa, devem ser pensadas a longo prazo. Uma família que cresce de forma planejada e precisará de um imóvel maior em alguns anos pode pensar no consórcio como investimento.

Poupança forçada

Quem tem mais dificuldade de poupar pode usar o consórcio para se forçar a guardar dinheiro e usar a carta de crédito no futuro para comprar o imóvel ou resgatar o dinheiro investido quando o consórcio chegar ao fim.

Despesas acumuladas

Diferentemente do financiamento, em que o comprador paga pelo imóvel já morando nele, o consórcio exige planejamento. Quem hoje paga aluguel, por exemplo, deve considerar que terá de arcar também com as mensalidades do consórcio até receber o benefício.

por Douglas Gravas/Folhapress (de São Paulo)
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