A Influência dos Animais

na Saúde dos Donos

Os estudos sobre a relação homem-animal apenas foram reconhecidos no meio acadêmico norte-americano por volta de 1970/80, quando foram criadas as sociedades científicas que realizaram as primeiras conferências e onde foram publicados os primeiros artigos a abordarem temáticas,  como “Os animais e as crianças”, “Os animais e a saúde”, entre outros.
Desde então, existe um crescente interesse no meio científico no estudo do vínculo entre humanos e animais, devido, em grande parte, ao elevado número de pessoas com bichos. Só nos EUA existem mais de 68 milhões de cães e 75 milhões de gatos, sendo gastos anualmente, em média, cerca de 30 bilhões de dólares com os animais de estimação.
Mas que vínculo existente é este? Que relação é esta que se estabelece entre “donos” e animais?
Os “donos” de animais de estimação consideram-nos membros da família e eu atrevo-me a considerar a relação que se estabelece entre eles como uma relação dinâmica que beneficia ambos, dependendo de comportamentos fulcrais, quer para o bem-estar, quer para a própria saúde, e que inclui interações ao nível físico, emocional e psicológico – não basta ser “dono”,  é necessário passear, brincar, conviver, tratar, acarinhar.
E que benefícios podem nos trazer os animais? Penso que, em primeiro lugar, a dádiva da sua companhia, e, como em todas as relações, os benefícios só existem se houver afeto. E como se estabelecem essas relações? As emoções dos animais são cruas, sem filtro e sem controle. A sua alegria é a mais pura e a mais contagiosa de todas e o seu sofrimento o mais profundo e devastador. Formamos relações próximas com os nossos animais de estimação, não só devido às nossas próprias necessidades emocionais, mas também devido ao reconhecimento das necessidades deles.
Se pudermos observar as interações entre as pessoas e os seus cães, por exemplo, podemos observar pormenores e sutis de comunicação que ocorrem através da voz e do movimento, reveladoras de uma forte união social recíproca e claramente baseada no respeito e sentimento mútuos. Ambos os seres, humano e canino, partilham uma ligação emocional duradoura que vai muito além do simples treino.
E então, haverá alguma influência dos animais de estimação na saúde dos donos?
Essa tem sido a preocupação dos investigadores; encontrar os mecanismos que explicam os benefícios dos animais para os humanos. A maioria enfatiza os atributos integrantes ou intrínsecos dos animais, que os utiliza para promover alterações na autoestima e comportamento das pessoas.
Inúmeras investigações têm sido feitas e uma delas diz respeito à influência dos animais de estimação na pressão arterial dos donos. Colocada a hipótese de que os animais de estimação influenciariam a nossa pressão arterial, foram feitos alguns estudos. Um dos quais, os sujeitos eram mulheres e a tarefa que teriam que desempenhar consistia em efetuar uma série de cálculos aritméticos em quatro condições distintas: sozinha, na presença da melhor amiga, na presença do cônjuge e na presença do seu cão ou gato. Os resultados foram que, ao contrário do que se esperava, a pressão arterial oscilou entre os 120/80 a 155/100, quando acompanhadas pelo cônjuge; enquanto na presença do seu cão/gato, a pressão arterial manteve-se quase normal, entre os 125/83.
Pensou-se que a explicação para estes resultados fosse o fato dos animais de estimação serem vistos apenas como entretenimento, e o estresse era eliminado porque os participantes desistiam da tarefa. Mas não. Não só os participantes não desistiam da tarefa, como o seu desempenho era melhor e mais rápido quando os animais de estimação estavam presentes, do que quando estavam presentes os cônjuges. A explicação para estes resultados parece residir no fato de os participantes saberem que não existia qualquer tipo de julgamento por parte dos seus animais de estimação, ao contrário do que acontecia com  sua melhor amiga e seu cônjuge.
O fato de haver julgamento por parte da melhor amiga e do cônjuge cria uma situação de tensão, o que leva a um aumento da pressão arterial. Com os nossos animais de estimação isso não acontece. Sabemos que gostam dos donos de qualquer maneira, saiba ele ou não fazer cálculos aritméticos.
Mas, e não será que é o fato de as pessoas que têm animais de estimação serem mais saudáveis do que as que não têm?
Para colocar essa hipótese de lado, recorreu-se a pessoas que têm provavelmente a profissão mais estressante: os corretores da Bolsa de Valores. Metade desses participantes não tinham animal de estimação, enquanto a outra metade adotou um animal. O que era comum a todos eles era o fato de viverem sozinhos, terem elevados níveis de pressão arterial. Foi adicionado um fator, medicação que diminui os níveis de pressão arterial (mas não quando existe um elevado grau de estresse). Metade tinha adotado um animal de estimação e tomava o medicamento, e a outra metade apenas era medicada.
Os resultados, tal como previsto, foram a redução da pressão arterial por parte do medicamento em todos os participantes, no entanto, quando estes estavam sob estresse, os indivíduos que adotaram animais de estimação tiveram menos da metade de aumento da pressão arterial do que os indivíduos sem animal de estimação. Esses resultados mostram a evidência para o papel de animais de estimação na prestação de apoio social.
Mas além dos benefícios já mencionados, os animais de estimação também podem ser catalisadores sociais e podem ajudar crianças autistas e socialmente introvertidas (aumento de comportamentos pró-sociais). O termo “terapia animal” foi criado por Boris Levinson, psicólogo infantil americano. Ele descobriu que muitas crianças introvertidas e pouco comunicativas se tornavam mais extrovertidas e interagiam positivamente se o seu cão, Jingles, se juntasse a eles nas sessões de terapia.
Podemos, no entanto, citar alguns pontos menos positivos das relações humano-animal. Na maioria das grandes cidades, as pessoas tendem a estar mais sozinhas, mergulhadas em trabalho.  Por vezes, muitas vivem apenas com o animal, criando com este uma ligação muito acentuada, o que pode, muitas vezes, dependendo da forma como se estabelece a relação ou do comportamento do dono, originar comportamentos de ansiedade – “ansiedade de separação”, em que o dono fica ansioso ao sair de casa, por ficar preocupado com o bicho; uma preocupação constante e desmedida sobre como estará o animal.
Em pessoas com dificuldade em estabelecer relações com outros, muitas vezes, veem num animal uma forma mais fácil de estabelecer vínculo, o que pode reforçar comportamentos de isolamento. Concluindo, apesar dessas últimas implicações, a verdade é que podemos afirmar, de acordo com inúmeros estudos, que os animais de estimação parecem ter um impacto positivo na pressão arterial dos donos, assim como na saúde em geral, como também podem ser catalisadores de comportamentos pró-sociais.

fotos CC0 Public Domain/Pixabay, ilustração Designed by Freepik.com
por Ana Paiva (do site Mundo dos Animais - Portugal) - adaptado para o português do Brasil

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