O Pai da Era Digital

O Pai da Era Digital

O pai da era digital não tem idade, ní­vel e nem classe social. Pode ser um alto executivo, sóbrio e centrado, que não abre mão da tecnologia avançada. Quem sabe um operário da construção civil, muito interessado e disposto a novas chances de um futuro melhor? Existem ainda os pais que não se adaptam ao mundo moderno, porém a tecnologia afeta sua vida porque o filho é conectado.

O pai digital quer atingir a boa forma; vai à academia e está mais preocupado com a saúde e o condicionamento físico.

Há pai digital de todas as idades, pais pre­coces de 16 e pais avançados aos 70. Ele quer viver intensamente, e pode ser um jovem quarentão, um cinquentão bem-disposto, um sessentão encantador, um coma atua­lizado ou, ainda, que tem cara de menina Muitos até parecem irmãos, e não pai e filho.

Pai digital quer ver o filho crescer. Im­põe limites, dá sermões, deseja ser ama­do e respeitado, e não permite que o con­flito de gerações os distancie, trazendo os filhos para perto em vez de ficar sozinhos em seus mundos feitos de diques.

Ele não permite que todas as situações sejam salvas por meio de uma telinha hipnotizante quando a filha não obedece ao que ele pede.

Hoje os filhos, e principalmente as fi-lhas, é quem têm ciúmes das namoradas dos pais antenados e não só o contrário.

E agora são os pais que não saem do computador. Não largam o celular. A era digital está mudando os estilos de vida, os comportamentos, os relacionamentos familiares, sociais e de alguns até a saúde.

O mundo real, e o mundo digital, que parece muito mais interessante e sur-preendente, oferece aventuras, oportunidades, busca pela autonomia, mas também, perigo e riscos para os pais com menos experiência e precoces.

O espaço cibernético, o mundo da internet e a velocidade da comunicação se tornaram o "lugar vivo de verdade" onde todos se encontram, aprendem, jogam, brincam, brigam, trocam fotos, ganham dinheiro, começam e terminam amizades e namoros.

Podem disfarçar melhor a ansiedade, a confusão, os medos e a alegria da passagem à vida adulta. Aliás, o idioma agora é o "internetês" com abreviaturas, ernoticons" e maneiras diferentes de se expressar e comunicar.

A internet atravessou fronteiras, dissolveu barreiras culturais, penetrou bloqueios políticos, vaporizou diferenças sociais e cresceu mais rápido e em todas as direções, superando as expectativas do futuro planejado nos séculos passados e as certezas tecnológicas.

Hoje os pais digitais devem saber o que é tecnoestresse, o cyberbullying, as mensagens dos videogames, as lan pouses e controlar as webeams. E, ainda, prevenir os problemas e tantas outras ameaças à saúde dessa geração digital.

Deve saber transformar o uso da internet em uma forma mais segura, ética, educativa e saudável de conhecimentos e como ponte de diálogo entre as gerações porque agora faz parte da rotina daos membros da família, afinal, fazem uso e se falam o dia todo por meio de aplicativos de bate-papo, não é mesmo?

A era digital não tem mais volta e o mundo do ciberespaço só aumenta a velocidade e a tecnologia dos novos equipamentos com a transformação dos comportamentos sociais e dos relacionamentos entre pessoas e empresas.

Existe uma nova geração digital que já nasceu e cresceu com o computador em sua casa, simplificando a vida e ajudando no cotidiano.

Esse novo pai tem que dar oportunidades de diálogo e servir de ponte entre as gerações, facilitando a comunicação entre todos da família para diminuir os obstáculos e bloqueios que as distorções do silêncio sempre impõem, principalmente na fase adolescente.

Vivemos numa época de amplas transformações de conceitos e posturas. O desenvolvimento tecnológico e a globalização no mundo moderno representam, em última análise, uma espantosa velocidade na produção, difusão e interface dos saberes, onde nada que se faz, se pensa ou se cria mantém-se ilhado. Na era digital o acesso às informações é quase ilimitado.

Os desafios da era digital tornam-se ainda mais impactantes quando nos damos conta que tais mudanças ocorreram em menos de 20 anos e foram de tal forma generalizadas, que re-presentam a expressão de uma nova geração que não vê a tecnologia apenas corno meio, mas como forma de pensar, raciocinar e ferramenta de expressão de uma nova dimensão da vida pessoal, social e educacional.

Se pudéssemos definir qual a geração digital, provavelmente teríamos que considerar os adultos que hoje têm 25 anos, quase a idade da internet. Levanto em conta que o SMS foi enviado em 1992, os cites começaram a surgir em 1995, o 1-lotmail apareceu em 1998, os primeiros sistemas de redes sociais, como o Orkut, em 2002, o Skype, em 2003, o Facebook, em 2004, o Youtube, que surgiu em 2005, e o WhatsApp, em 2009. Se pudéssemos, porque hoje, corno foi citado no inicio deste texto, é quase impossível dar idade ao pai dessa era digital.

O panorama digital sob a ótica de profissionais

A psicóloga Alessandra Cássia Ribeiro Chrisostomo, discorre sobre assunto: "atualmente mui­to tem se debatido sobre inter­net, era digital, comunicação virtual, e sobre as consequências de todas estas mudanças nas re­lações entre pais e filhos. A fami­lia tem sofrido alterações, tanto em sua configuração, quanto no aspecto hierárquico, comunica­cional e informativo".

Ela ainda afirma que os pais eram exemplos a serem seguidos, e todo universo de ensinamentos provinha desta relação profunda e direta e, assim, os filhos sen­tiam-se mais seguros, estáveis, amparados e felizes.

Os pais, por sua vez, preocu­pados, buscam incessantemente melhores oportunidades para seus filhos, e muitas vezes não se dão conta que o que eles mais precisam é de sua presença, seu conforto e de seu amor.

"Hoje os filhos recebem mui­ta informação vinda das redes sociais e da internet, e seus pro­blemas acabam não sendo mais discutidos com seus pais, e sim `resolvidos' sem a ajuda deles'', acrescenta a psicóloga.

Crianças e jovens, atualmen­te, passam horas em frente a um computador e quase nunca, ou mesmo nunca, convivem com seus pais, têm uma conversa ami­ga, amorosa e reconfortante.

O DESENVOLVIMENTO TECNOLÓGICO E A GLOBALIZAÇÃO NO MUNDO MODERNO REPRESENTAM; EM ÚLTIMA ANALISE, UMA ESPANTOSA VELOCIDADE NA PRODUÇÃO. DIFUSÃO E INTERFACE DOS SABERES. ONDE NADA QUE SE FAZ, SE PENSA OU SE CRIA MANTÉM-SE ILHADO. NA ERA DIGITAL O ACESSO ÀS INFORMAÇÕES É QUASE ILIMITADO

Cabe ressaltar que não se pode responsabilizar a tecno-logia pelos males nas relações, pois se utilizada com funcio-nalidade, critério e equilíbrio pode ser considerada uma grande aliada, já que gera conhecimento, facilita a vida e ganha-se tempo por meio dela. Mas a pergunta é: ga-nhar tempo para quê? Para ficarem mais tempo juntos e usufruírem da deliciosa com-panhia de quem se ama? Esta seria urna boa resposta, po-rém nem sempre é a que con-diz com a realidade.

"Mas um conforto diante de tudo isso é que há a possibilidade de mudança des-se cenário. Resgatando nossos vínculos e olhando de verdade para quem se ama, sem intermediação virtual e sim utilizando toda esta tecnologia, tablas, smartphones, notebooks, corno eles realmente são: recur-sos e instrumentos a serem utilizados, mas que nunca poderão substituir o `face a face; o toque, porque são eles que humanizam e aproximam verdadeira mente os seres hu-manos de sua essência e, consequentemen-te, poderão fazê-los plenos e mais felizes, finaliza a profissional. As crianças e adolescentes passam boa parte do tempo, nas escolas ou colégios,

em atividades complementares, utilizan-do computadores e a internet como fer-ramentas de ensino. Diante desse cenário, a pedagoga Rosane Meirelles de Morais Carvalho, que é professora da Rede Municipal de Ensino de São Paulo e possui mais de 30 anos de experiência na área, explica que a escola em que trabalha se preocu-pa e toma alguns cuidados para que as crianças não corram riscos na internet ou acessem conteúdos inadequados. "A escola bloqueia sites não pedagógicos e no computador utilizado pelo professor, ele consegue monitorar as máquinas dos alunos. A internet é usada somente para fins pedagógicos, para pesquisas e na sala de informática", explica.

Uma das formas encontradas pela escola onde Rosane leciona é proibir o USO de celular ou tablets em sala de aula. Os alunos não gostam e nem concordam com a norma, porém a direção convoca os pais para retirarem o aparelho, caso eles desobedeçam.

A internet proporciona um mundo de informações e possibilidades, e por ser de fácil acesso a todos, incluindo as crianças, que aprendem a navegar com facilidade, é preciso que os pais estejam sempre alertas para monitorarem o que seus filhos estão acessando. Nem sempre isso é uma tarefa fácil, já que o acesso à rede pode ocorrer fora de casa, em lan house.s, casas de amigos e até mesmo no próprio aparelho das crianças, adolescentes e jovens por pacotes oferecidos pelas operadoras de celular, pelas redes "wi-fi" oferecidas nas residências e em praticamente todos os estabelecimentos comerciais.

A opinião dos Pais Digitais

Em uma passagem pelo Centro Esportivo, Recreativo e Educativo do Trabalhador (Ceret), a redação conversou com alguns pais para saber como se dá a relação digital entre pais e filhos.

Para o empresário Thiago Nogueira que utiliza a internet quase o dia todo, pois recebe e-mauls do trabalho e acessa constantemente as redes sociais, "até nas horas de lazer ou nas refeições olho meu celular. Trabalho com mídias sociais, recebo muitas coisas, não dá para ficar sem ele". O empresário conta que ainda não utiliza a in-ternet para se comunicar com o filho, mas afirma que o pequeno já possui um tablet para brincar. Conectado, Thiago assume: "Sempre que o celular apita, estou olhando. Tenho vicio de postar fotos do meu filho na internet pelo menos duas vezes por semana. Virou mania': Quando questionado se a tecnologia interfere no relacionamento entre pais e filhos, ele declara: "Hoje em dia, tem uma pessoa no quarto e outro na sala que, mesmo tão próximas fisicamente, elas conversam via smartphone. Portanto, acho que atrapalha, sim", conclui.

Com um filho de 9 anos, o bancário Cristiano Aparecido Guilherme diz que vigia e acompanha a navegação do menino, que há dois anos joga on-line e acessa alguns conteúdos da internet. "Faço uma abordagem bem incisiva a respei-to dos perigos da web, falo para não conversar com estranhos e monitoro tudo que ele faz, além de acompanhar a sua navegação, eu bloqueio alguns sites". Cristia-no e o filho já se comunicam digi-talmente; falam-se pelo aplicativo Whatsapp, mas afirma que essa não é a principal ferramenta de comunicação entre os dois e ele procura fazer atividades com o fi-lho, como futebol e judô. O ban-cário confessa que utiliza redes sociais e verifica o smartphone mesmo em momentos de lazer, e assegura: "Na minha época, eu brincava na rua, andava mais de bicicleta, meu filho tem outras preferências, porém fica muito isolado".

Conectado à internet 12 horas por dia, o gerente de desenvolvimento de produtos Rodrigo Sobral Vilar assume que olha o seu celular com muita frequência para ver noticias e o utiliza até mesmo em horário de refeições e lazer. Para ele, " o uso de celular acabou virando uma necessidade, a gente quer saber a todo o momento se estamos sendo chamados por alguém". Ele afirma também que "todo mundo está muito carente, você fica toda hora olhando e procurando se tem algum recado, mesmo que não tenha nada, você sempre fica esperando alguma mensagem chegar".

Sobre as relações entre pais e filhos nessa nova era digital, ele reflete: "estamos de certa forma colocando parte do nosso tempo em que deveríamos investir neles (filhos), urna vez que pai e mãe trabalham, o tempo livre é para passearmos, e quando percebemos, colocamos um tabiet na mão da criança, querendo dizer. `me deixa em paz!: Acho que a tecnologia está atrapalhando bastante: O gerente afirma que tem conseguido se desconectar quando está com a sua filha: "estamos aqui no parque há quase uma hora, eu devo ter olhado uma vez no celular para ver se tinha alguma chamada perdida. Ainda estou longe do ideal, mas tenho conseguido me desconectar".

Um pai bem conectado é o vendedor Marcus Vinicius. Ele utiliza o dia inteiro o aplicativo Whatsapp para falar com suas filhas e com clientes, inclusive durante as refeições. Mesmo se considerando usuário assíduo de tecnologia, Marcus, quando está em casa, afirma não utilizar nenhum aplicativo para se comunicar com as meninas (Ana Gabriela tem 22 anos e Sofia, 16). Ele procura conversar, brincar, abraçar e beijar suas filhas, e garante que "aplicativo nenhum garante essa alegria O vendedor acha que a tecnologia não atrapalha o relacionamento entre pais e filhos, o que distancia é o excesso: "ainda sou a favor do bate-papo, é mais gostoso ficar face a face".

Ele conta também que monitora o conteúdo que as filhas acessam e a família conversa muito sobre os perigos e cuidados de navegação da web. Marcus afirma que os novos meios de comunicações, como o Whatsapp, são importantes pela agilidade e acha necessário que as suas filhas tenham acesso às novas mídias sociais, pela facilidade de comunicação com amigos, familiares e conhecidos, e que elas até utilizam essas ferramentas para realizar trabalhos escolares.

Uma pesquisa realizada pela revista norte-americana Highlights em 2014 com 1,521 crianças com idade de 6 a 12 anos, mostrou que 62% das crianças entrevistadas dizem que os pais estão distraídos quando elas tentam falar com eles. O motivo principal da distração apontado pelos pequenos foi o celular, com 28% das respostas. No total, 51% das crianças revelou que a tecnologia (laptops, celulares e TV) é o principal motivo de distração dos pais.

A agência de publicidade Ogilvy Beijing, da China, elabo-rou uma campanha internacional denominada "The More You Connect, The Less You Conect", com a tradução livre "Quanto mais você conecta, menos você conecta", alertando o público sobre o distanciamento entre as pessoas em consequência do uso excessivo da tecnologia.

Percebe-se, então, que a visão de profissionais como a psicóloga e a pedagoga, pela declaração dos pais entrevistados no Ceret, a pesquisa feita por veículos importantes como a Revista Highiights e a campanha da Agência Ogilvy Beijing apontam para o excesso no uso de tecnologias. Então mantenha-se atualizado, fique atento, se precis% imponha limites, converse, eduque e até espiritualize.

Por fim, nessa relação de pais conectados e filhos superantena-dos, o melhor é a simplicidade do abraço, a singeleza do perdão se vocês estão brigados. O carinho de um almoço caprichado, uma lembrança simples que tocará o coração desse pai digital.

Se tal simplicidade for um novo aparelho super, hiper, rue-gainterativo, com mais memória, com ultraprocessador e bateria que tem duração de dias, com melhor touchscreen, ou simplesmente aquele pijama e chinelo, seguidos daquela caneca, da caneta e dos ingressos para o jogo do time de coração de seu pai resistente ou antenado, o que realmente importa é que estas relações sejam munidas de sentimentos verdadeiros e que todas as dificuldades sejam resolvidas com um papo saudável.

Porque os filhos têm que crescer, não tem jeito. Os pais, brincar de avô com os seus filhos e os filhos dos seus filhos, no tapete da sala de estar. Todos os pais são heróis e bandidos, muito mais que amigos, nunca deixam seus pequenos sozinhos, pois fazem parte desse aprendizado e que sempre os ajudam a seguir em paz.

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