Tatuapé, espaço urbano em ocupação

Praça Silvio Romero reúne diferentes atrações

Aquele velho conceito de pra­ça como local de encontro ainda é realidade no bairro do Tatuapé. A Praça Silvio Romero faz parte da vida de moradores do bairro e reúne visitantes de todos os cantos da cidade. Cercada pelo comércio da região, destaca-se por ser uma área verde no centro de ruas movimentadas do bairro: Tuiuti, Serra de Bragança e Coelho Lisboa.

Diferentes gerações frequenta­ram a praça com os mesmos obje­tivos: encontrar amigos, repousar no intervalo ou após o trabalho, ir à igreja, passear com a família, na­morar, enfim, ocupar a praça tor­nando-a espaço de convivência.

Muito antes da onda de food trucks que toma conta de São Pau­lo, a Praça já era famosa pela co­mida de rua. É lá que estudantes dos colégios e cursinhos da região se encontram depois da aula para tomar um sorvete ou comer um hot dog, este também muito apre­ciado pelos baladeiros de plantão para encerrar uma madrugada de diversão. Hoje, alguns eventos fixos e outros esporádicos movimentam a praça. Às terças-feiras, o movimento por lá é grande. Durante o dia, acontece a Feira de Artesanato e Comidas Típicas Silvio Romero, e à noite o Encontro de Artes Circenses da Zona Leste - Circo na Praça.

FEIRA

A Feira de Artesanato e Comidas Típicas Sil­vio Romero acontece há mais de 20 anos e tem diversas barracas que vendem desde chaveiros e pijamas até doces e plantas. É realizada em par­ceria com a subprefeitura da Mooca, que cuida ainda de outras feiras na região. Além da subpre­feitura, a Polícia Militar e a Paróquia também apoiam os artesãos.

Maria Tereza de Azevedo, a Terezinha, é uma das participantes e hoje também coordena os ar­tesãos. Ela começou a trabalhar na feira cerca de um ano depois do início, vendendo semi-joias. O desejo de Terezinha é que o número de barracas aumente e ocupe ainda mais espaço da praça. “A feira é uma tradição no bairro. Quero que ela ocupe a praça toda”, diz.

Terezinha explica que desde o começo da feira os comerciantes mudam constantemente. Atualmente, há 65 barracas cadastradas, mas é raro que todas estejam montadas no mesmo dia. “Eles começam a trabalhar na feira, percebem que estão vendendo pouco e saem. Alguns voltam depois de um tempo.” Para ela, um dos motivos do de­sânimo dos comerciantes é a pouca divulgação da feira, que apesar de estar presente na praça há tanto tempo é desco­nhecida por pessoas que trabalham ou frequentam a região.

Um projeto da subprefeitura da Mooca quer motivar os comerciantes a partir deste ano. Coordenado pela supervi­sora de cultura, Conceição Concheta, o projeto pretende criar workshops realizados pelos próprios artesãos, para que apresentem o seu trabalho, ensinem técnicas e passem dicas para os visitantes. A ideia está sendo discutida com todos os envolvidos e tem sido bem rece­bida, segundo Conceição. A partir da implantação dos workshops, a divulgação da feira também deve aumentar.

ESPETÁCULO NA PRAÇA

Desde maio de 2014, o Encon­tro de Artes Circenses da Zona Leste - Circo na Praça, idealizado por Roney dos Anjos e Silvana Machado, é realizado na praça. “A ideia surgiu como uma descen­tralização da arte. Uma forma de criar novos espaços culturais em São Paulo, tendo a rua como um espaço democrático onde todas as pessoas possam ter contato com a arte”, diz Roney.

O encontro serve também como espaço para que artistas da Zona Leste possam se encontrar, trocar experiências, técnicas e ex­perimentação das suas pesquisas. Uma das atividades do grupo leva artistas a um treino a céu aber­to. “Todos levam seus materiais, como claves, monociclo, bolinhas, diabolô, perna de pau, tecido aé­reo e lira para pendurar na árvore, e a gente troca experiências”, diz Danilo Peres, o palhaço Pescoço e participante do encontro.

Danilo conta que há também oficinas, nas quais é formado um grupo de interessados em apren­der malabarismo, e outras vezes é realizado o cabaré, reunindo ar­tistas do Brasil todo e, até de fora do país, para se apresentarem na praça.

O cachê é à chapéu, ou seja, contribuição voluntária do público que assistiu o espetáculo, que, de acordo com o fundador, “é aberto a qualquer pessoa que esteja pas­sando e queira parar para ouvir uma música, assistir a um espetá­culo, aprender a jogar malabares, conversar ou simplesmente desa­celerar e ter sua rotina quebrada”.

O encontro surgiu de forma in­dependente e se mantém com as contribuições espontâneas, mas conta também com a colaboração do Dogão e Cia. “O Dogão e Cia nos apoia desde o início e todas às terças nos cede um ponto de luz para ligarmos nossos aparelhos”, explica Roney.

O Circuito das Artes Circenses de São Paulo e Re­gião, do qual o Circo na Praça faz parte, realiza cada dia da semana um encontro de malabaristas e circen­ses em outros locais da cidade, como Pinheiros, São Bernardo do Campo, Praça Roosevelt, Santo André e Suzano. “O encontro em Pinheiros, o Circo no Beco, é o mais antigo, já tem por volta de 12 anos”, conta Danilo.

RESISTINDO AOS EFEITOS DO TEMPO

Assim como outras praças de São Paulo, a Silvio Romero enfrenta situações de degradação, o que exi­ge que melhorias sejam feitas constantemente, para a manutenção de canteiros e pisos, além do controle de lixo depositado irregularmente. A população de mora­dores de rua também se faz presente, principalmente no entorno da Paróquia Nossa Senhora da Conceição.

Tudo isso é motivo de reclamações, principalmen­te por parte daqueles que guardam na memória os tempos áureos da praça e hoje se indignam com os problemas existentes.

Terezinha explica que durante a realização da feira a praça fica bastante segura. Uma prova de que ocu­par o espaço público é a melhor solução para inibir atos de violência. “O dia a dia da feira é tranquilo, e se observamos algum movimento estranho recorremos à base da polícia que fica na praça. O que raramen­te acontece. Mas se aparece alguém embriagado ou drogado incomodando, contamos com o apoio dos policiais, que também ficam circulando pelo local. Si­tuações de roubo são ainda mais raras”, diz.

A realidade da Silvio Romero é semelhante à de outras praças da cidade, que sofrem com problemas de infraestrutura e segurança, contudo, consegue manter boa parte de frequentadores, que não se dei­xaram intimidar pelos inconvenientes. Ao contrário de muitas que hoje estão em situação total de abandono, a Praça Silvio Romero é um exemplo de sobrevivência.

O fundador do Circo na Praça ressalta que a Praça Silvio Romero tem um forte apelo à memória afetiva da Zona Leste, pois é um local que, há diversas gera­ções, é frequentado por jovens do Tatuapé e de ou­tros bairros.

Para Roney, um dos piores efeitos causados pela violência, o estresse urbano, o excesso de tecnologias e afins é o afastamento das pessoas, que “deixaram de ocupar os espaços públicos, ruas e praças que an­tes eram vivas e estão cada dia mais abandonadas, mais entregues, mais mortas”.

O conceito de praça como lugar de encontro e con­vivência é algo que deve ser estimulado a cada dia, e é isso que o Encontro Circense vem promovendo na Silvio Romero. “A arte tem o poder de transformação, de resgate, de revitalizar, de fazer reviver. Seja um es­paço seja uma pessoa – pode ser um morador de rua, uma família ou alguém que esteja saindo cansado do trabalho ou da escola – que tenha contato com a arte sairá modificado. Aquele espaço e aquela pessoa sai­rão resignificados”, diz Roney.

PASSADO

Registros da história do Tatuapé contam que a re­gião teve intensa prática da viticultura, tendo sua pri­meira vinícola instalada por Brás Cubas, em 1551. A atividade atingiu seu apogeu em fins do século XIX, quando famílias de imigrantes italianos instalaram suas vinícolas no bairro. Parte das chácaras que abri­garam essas vinícolas sobreviveram até o século se­guinte, quando passaram a dar espaço à construção de casas.

É neste contexto que a história da Praça Silvio Romero começa. Inicialmente, o local era conhecido como Largo da Conceição, onde foi construída a ca­pela em estilo barroco dedicada à Nossa Senhora da Conceição, fundada em 1899. Esta foi a segunda capela construída no Bairro do Tatuapé, a primeira foi dedicada a São José do Maranhão. Apenas em 1931 o local onde a igreja foi construída foi nomeado Praça Silvio Romero.

O terreno em que a igreja foi construída foi doado pelo governo do Estado de São Paulo ao Tenente Luis Ameri­cano, em janeiro de 1890, e ele fez doação do terreno à igreja para que nele fosse construída uma capela dedicada à Imaculada Conceição.

Na década de 1940, o ar de praça do interior tomava conta do local, mas o bairro havia crescido e houve a ne­cessidade de ampliar o tamanho da capela. Em 1941, com a colaboração dos devotos, foi comprado um terreno no número 230 da Praça Silvio Romero, e nele foi construído um salão, habilitado para o culto em 1950.

A escritura pública do terreno doado pelo Tenente Luis Americano foi conquistada apenas em 1959 por sentença judicial Usucapião, mas o processo havia começado em 1952. No mesmo ano da emissão da escritura, foi lançada a pedra fundamental da nova matriz, edificada no mesmo local onde esteve a centenária capela.

Em 1960, a capela foi erigida em Paróquia e, mesmo após as obras, os sinos que estão na fachada e a imagem de Nossa Senhora da Conceição foram mantidos, e perma­necem até hoje.

Das décadas de 1950 e 1960 as lembranças remetem ao movimento de moradores na praça que iam vestidos formalmente às sessões do Cine Leste ou visitavam a pra­ça para saborear as delícias da Padaria Lisboa. Fundada em 1913 pela família portuguesa Martins — e existente até hoje —, a padaria tinha como especialidades a empa­dinha e o filão de pão.

Nos anos 80, os jovens da região iam à praça para se divertirem e paquerar. Terezinha e Conceição vivenciaram aquele período, em que o grande agito era circular de car­ro para observar o movimento e depois ir ao bar Pilequi­nho para interagir com as pessoas.

Em 2008, foi construído na praça o primeiro Marco da Paz da Zona Leste, com o apoio da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). O monumento lembra aos homens dos cinco continentes a necessidade da manutenção da Paz e foi idealizado por Gaetano Luigi Brancati.

O primeiro Marco da Paz, instalado no Pátio do Colé­gio em 2000, foi idealizado e começou a ser construído em 1999. Desde então, o Marco da Paz foi difundido pelo mundo e está atualmente em 23 localidades. O da Praça Silvio Romero foi o primeiro da Zona Leste, o sétimo do país e o nono do mundo.

Quem foi Silvio Romero?

Crítico, ensaísta, polemista, professor e historiador da literatura brasileira, Silvio Vas­concelos da Silveira Ramos Romero nasceu em Lagarto (Sergipe), em 1851, e faleceu no Rio de Janeiro, em 1914.

Foi um dos criadores, ao lado de Tobias Barreto, da chamada Escola de Recife, em que se buscava uma renovação da mentalidade brasileira. Lá, publicou seus primeiros traba­lhos de crítica. Por esse e outros motivos, é considerado um dos criadores da crítica lite­rária no Brasil.

Enquanto cursava Direito pela Faculdade de Direito do Recife — onde formou-se em 1837 —, começou a sua atuação jornalística na imprensa pernambucana. Primeiro, publi­cou a monografia “A poesia contemporânea e a sua intuição naturalista”, depois colaborou em diversos jornais, ora como ensaísta e críti­co, ora como poeta.

Em 1888, publicou a sua principal obra: a História da Literatura Brasileira. De acordo com a Academia Brasileira de Letras (ABL), foi convidado a comparecer à sessão de instala­ção da entidade, em 28 de janeiro de 1897, e fundou a cadeira nº 17, escolhendo como patrono Hipólito da Costa. Foi sucedido por Osório Duque-Estrada.

Na política, foi deputado federal por Sergi­pe de 1899 a 1902, pelo Partido Republicano, e trabalhou na comissão encarregada de rever o Código Civil na função de relator-geral. Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias.

Amanda Santana

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