Saúde na melhor idade

prevenções e cuidados

O envelhecimento da população mundial, felizmente, atingiu o Brasil. Isso significa que hoje conseguimos, como país, viver mais e melhor. Isso cria um ambiente onde as oportunidades de lazer e tratamento são individualizadas e atingem todas as pessoas, não apenas os mais jovens.
A Sociedade de Cardiologia Americana (American Heart Association) foi enfática: os cinco maiores fatores de risco são hipertensão, sedentarismo, obesidade, alteração de colesterol e triglicerídeos e tabagismo.
Em qualquer faixa etária a pressão arterial é um problema que aumenta o risco de eventos cardiovasculares maiores (acidente vascular cerebral, infarto e morte). A hipertensão arterial pode ser causada por aumento da rigidez das artérias, bem como por ingestão inadequada de sal (na sua minoria). Outra coisa que poucos sabem é que a participação de açúcar na dieta em quantidade excessiva pode aumentar a pressão arterial, tanto de forma aguda quanto crônica. Uma dieta excessiva em alguns açúcares pode aumentar a pressão em até duas semanas do início do uso abusivo. Sugere-se uma participação do açúcar em menos de 10% da dieta. A participação sugerida do sal é menor que 2g de sódio (ou 6 gramas de sal) por dia. O tratamento da hipertensão arterial previne de forma importante os eventos graves. A cada redução de 10mmHg (milímetros de mercúrio, a unidade que usamos de medida da pressão) reduz em até 10% o risco de eventos. A hipertensão na terceira idade, no entanto, requer um tratamento mais individualizado. Enquanto em pessoas com menos de 60 anos de idade o alvo é pressão inferior a 130/85mmHg, em idosos o limite superior é mais complacente, de 150/90mmHg. Os maiores receios dos médicos que tratam esse grupo de pessoas são tonturas e quedas. Nessa faixa etária, em especial com a associação do uso de anticoagulantes e arritmias cardíacas, quedas podem levar a sequelas mais graves.
O sedentarismo, por outro lado, é um vilão independente na saúde. Estima-se que até 75% dos idosos nos Estados Unidos da América não faz exercício suficiente. Não existe idade para começar a se exercitar. Recomenda-se que sejam feitas atividades que contem como exercício por meia hora por dia (mínimo). Essa meia hora pode ser dividida em atividades mais curtas, como em três vezes de dez minutos cada (não menos que isso). Qualquer um pode iniciar atividades não competitivas. Recomenda-se, no entanto, que pessoas com mais de 45 anos e dois dos seguintes fatores de risco - doença cardíaca em familiar jovem, colesterol alterado, obeso, hipertenso, diabético - deva passar por avaliação médica antes de iniciar. Estudos sugerem benefícios mesmo quando o exercício é iniciado após os 75 anos.
Apesar da maioria dos médicos defenderem os exercícios aeróbicos, os de resistência são benéficos nesta faixa etária. Estima-se que existe perda de força de 10% por década após os 50 anos de idade e de 30% por década após os 70 anos. Estima-se que mais da metade dos idosos não tem capacidade de levantar e manter 5kg de peso. Exercícios focados no aumento de massa muscular e aumento de força trazem maior autonomia e consequentemente melhor qualidade de vida. O risco de vida para exercícios iniciados fora de ambiente hospitalar é mínimo, em situações onde o nível de esforço é leve a moderado. Em um trabalho de exercícios comunitários, com mais de 8000 pessoas, em Massachusetts, demonstrou a segurança do início de atividade física com supervisão extra-hospitalar. Neste trabalho não houve nenhum infarto ou evento de risco a vida.
A obesidade, muitas vezes, é um problema subvalorizado em idosos. Por muitas vezes a inatividade física relacionada à obesidade e doenças associadas levam ao aumento de gordura associada à redução de massa muscular. O tratamento da obesidade em idosos traz algumas peculiaridades: como existem muitas comorbidades que aumentam com a idade, e que por sua vez requerem tratamento farmacológico, a associação medicamentosa e o aumento de efeitos colaterais é uma constante. Qualquer redução de 5 a 10 kg já reduz junto o risco cardiovascular de forma significativa. A circunferência abdominal é um jeito de avaliar qual o tipo de gordura. A gordura abdominal (visceral) é um marcador de risco para o seu portador. Além do índice de massa corporal e do peso em si, a medida da circunferência abdominal em centímetros já identifica as pessoas em maior risco. Homens com circunferência maior que 110 cm e mulheres maiores que 95 cm têm risco duas vezes maior de morrer, ter infarto ou AVC. O mais interessante é que, independente da perda de peso, a presença de atividade física já reduz o risco cardiovascular.
O controle do colesterol é benéfico para redução de placas de gordura nas carótidas. As placas de gordura se formam ao longo da vida e seu rompimento impede o fluxo de sangue até o cérebro. Isso pode matar ou permitir sequelas a longo prazo, como AVC. Pessoas com diabetes e doença coronariana devem ter níveis de colesterol abaixo dos requeridos para pessoas da mesma idade e sexo.   
O tabagismo é um fator de risco independente para câncer de pulmão, enfisema e bronquite. Também é a maior causa removível de infarto em jovens (abaixo dos 35 anos). A nicotina aumenta a pressão arterial imediatamente após o uso. Também traz consigo toxinas que pioram a metabolização do colesterol e facilita a deposição e lesão de placas de gordura nas coronárias (causando infarto).  
Tão importante quanto prevenir é saber identificar o infarto. A dor do infarto é uma sensação mal definida, surda, que pode se alojar em qualquer local entre o lábio inferior e a cicatriz umbilical. Ainda que a maioria das pessoas sinta dor no meio do peito, em aperto, espalhando para o braço direito, vemos com muita frequência apresentações menos características.
Já vi pessoas com dor no queixo, dor nas costas. As características do infarto em mulheres são muito menos típicas, com queixas de queimação ou agulhadas no peito ou ainda falta de ar sem dor. Qualquer dor nessas regiões que se mantém por mais de 20 minutos deve ser investigada e considerada doença grave, especialmente se associada aos seguintes sintomas:
• vômitos;
• suor frio;
• fraqueza intensa;
• palpitações;
• falta de ar.
Na presença dessas sensações, é de extrema importância procurar ajuda no pronto socorro mais próximo em no máximo uma hora. Conforme o tempo passa a dor diminui, mas o dano torna-se mais extenso e irreversível. Após 12 horas de dor, o músculo em sofrimento já morreu quase por completo.
Não importa a idade, se cuidar sempre é importante.  

 

*Bruno Valdigem é doutor em cardiologia pela Universidade Federal de São Paulo / Escola Paulista de Medicina, tem título de especialista em cardiologia pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia.
Habilitado pelo departamento de estimulação cardíaca artificial da Sociedade Brasileira de Cirurgia Cardiovascular (SBCCV) e membro atuante na Sociedade Brasileira de Arritmias Cardíacas (SOBRAC).
É Eletrofisiologista Invasivo do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia. Eletrofisiologista invasivo e marcapassista dos hospitais Israelita Albert Einstein, São Luiz Jabaquara e Moliah.

Compartilhe este Artigo